A Elisa me lembra que somos todos iguais: deus deu de me fazer parecida, aparecida, santa, puta, criança, deu de me fazer diferente, pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente.
O Arnaldo repete a lembrança: semelhante de você, diferente de você, passageiro de você.
Tá, tudo bem.
Sempre achei que a nossa viagem era irremediavelmente uma viagem só: estamos todos no mesmo barco, e por questão de fio, por questão de uma única onda, é um dos remos entortar, pra todos naufragarmos.
E essa sensação de pertencimento a uma multidão muito mais me agrada que assusta.
Só que tem dia que acontece diferente: tem dia que eu não queria ter nada a ver com nada disso aqui.
Hoje mesmo. Eu e Marly conversamos como duas senhoras de uma cidade de interior: nossa sintonia é fina, e o nosso estoque de assunto, inesgotável. Contei uma história cabeluda pra ela: como diabos eu me dei conta de que tinha finalmente ingressado na vida adulta, como as pessoas têm me assustado e entristecido, como a minha ingenuidade e o meu impulso em direção às gentes me expõem - pro melhor e pro pior -, como a gente acha que conhece mas não conhece etc. e tal.
Marly me responde com outra história cabeludíssima. Haja piolho pra mais essa cabeleira: é maldade, é dor, é sofrimento, é covardia, é nojeira da braba mesmo.
E agora, José? Eu sou isso também?
Essa violência descabida, essa insensibilidade ilimitada, esse horror - tudo isso me pertence, então?
Ah, não.
Prefiro pensar o que de fato é, o que de fato são: sintomas de uma sociedade à beira do abismo.
E aí, nesse barco furado, somos todos iguais, sim. Pra além dos horrores, estamos todos perdidos, solitários, inseguros, carentes, desa(l)mados, prefixados com todas as negativas possíveis: des-isso, in-aquilo, anti-nós.
Lidar com o fato de que o ser humano pode se tornar um monstro não me é tarefa simples.
Logo eu, com essa mania de explicação - como é que eu fico, meu irmão? Como é que eu me explico? Eu que sempre detestei filme de terror.
Faço volta e me agarro novamente aos poetas, aqueles desgarrados.
Faço silêncio e vigília.
Ouço cada um em acorde, verso, sentimento.
Saio fora dessa, pra voltar pra dentro.
E é nesse amálgama de infinitas cores e sons que eu me re-esperanço.
É na força de cada pulsação que tudo recomeça. Que se dá uma refundação.
Que tudo soa e ecoa como chamado a uma nova era, um novo tempo:
Vamos lá, meu semelhante.
Vida afora, gentileza gerando gentileza,
A gente se enriquecendo por dentro,
Se multiplicando, ficando grande.
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