quarta-feira, 27 de maio de 2009

Mania de explicação I

A Elisa me lembra que somos todos iguais: deus deu de me fazer parecida, aparecida, santa, puta, criança, deu de me fazer diferente, pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente.
O Arnaldo repete a lembrança: semelhante de você, diferente de você, passageiro de você.
Tá, tudo bem.
Sempre achei que a nossa viagem era irremediavelmente uma viagem só: estamos todos no mesmo barco, e por questão de fio, por questão de uma única onda, é um dos remos entortar, pra todos naufragarmos.
E essa sensação de pertencimento a uma multidão muito mais me agrada que assusta.
Só que tem dia que acontece diferente: tem dia que eu não queria ter nada a ver com nada disso aqui.
Hoje mesmo. Eu e Marly conversamos como duas senhoras de uma cidade de interior: nossa sintonia é fina, e o nosso estoque de assunto, inesgotável. Contei uma história cabeluda pra ela: como diabos eu me dei conta de que tinha finalmente ingressado na vida adulta, como as pessoas têm me assustado e entristecido, como a minha ingenuidade e o meu impulso em direção às gentes me expõem - pro melhor e pro pior -, como a gente acha que conhece mas não conhece etc. e tal.
Marly me responde com outra história cabeludíssima. Haja piolho pra mais essa cabeleira: é maldade, é dor, é sofrimento, é covardia, é nojeira da braba mesmo.
E agora, José? Eu sou isso também?
Essa violência descabida, essa insensibilidade ilimitada, esse horror - tudo isso me pertence, então?
Ah, não.
Prefiro pensar o que de fato é, o que de fato são: sintomas de uma sociedade à beira do abismo.
E aí, nesse barco furado, somos todos iguais, sim. Pra além dos horrores, estamos todos perdidos, solitários, inseguros, carentes, desa(l)mados, prefixados com todas as negativas possíveis: des-isso, in-aquilo, anti-nós.
Lidar com o fato de que o ser humano pode se tornar um monstro não me é tarefa simples.
Logo eu, com essa mania de explicação - como é que eu fico, meu irmão? Como é que eu me explico? Eu que sempre detestei filme de terror.
Faço volta e me agarro novamente aos poetas, aqueles desgarrados.
Faço silêncio e vigília.
Ouço cada um em acorde, verso, sentimento.
Saio fora dessa, pra voltar pra dentro.
E é nesse amálgama de infinitas cores e sons que eu me re-esperanço.
É na força de cada pulsação que tudo recomeça. Que se dá uma refundação.
Que tudo soa e ecoa como chamado a uma nova era, um novo tempo:
Vamos lá, meu semelhante.
Vida afora, gentileza gerando gentileza,
A gente se enriquecendo por dentro,
Se multiplicando, ficando grande.

sábado, 23 de maio de 2009

Espelho, espelho e eu

Tem dia que o espelho responde assim: ok, segue em frente.

É quando o espírito transmite a calma de se saber o possível, o máximo possível.

Tem dia que o espelho te encara logo cedo e diz: qual é, pô, dá pra fazer muito melhor.

É quando o espírito comunica que há vida dentro querendo sair.

O espelho e eu: a gente anda em negociação.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Força estranha

Há quase uma semana, o Caetano Veloso se estabacou em pleno palco, aqui em Brasília. Cantava "Força estranha" e alguma força estranha quase que quebra o nariz do cara. Que merda, hein.

Quase uma semana depois, outra força estranha me traz de volta aqui. Eu, hein.

Meu pai me disse esses dias que tem mania de explicação. Eu olhei pro velho meio curiosa. Pensei: logo você? tá de sacanagem. Nada! Ele me jurou que tinha, sim, a tal mania. E tinha razão também, porque ele explica o mundo inteiro, sob uma ótica um tanto... campestre, eu diria, mas explica. Explica e não cobra direito autoral, porque ainda não descobriu as maravilhas da propriedade intelectual.

Quanto a mim, fiquei meio decepcionada. Eu achava que DNA só transmitia miopia, prisão de ventre, (des)inteligência, (in)fertilidade, alergia, problemas dermatológicos.

O velho não me criou, pô.

Como é que se criou em mim, então, essa tal mania de explicação?