terça-feira, 2 de junho de 2009

Carta pra uma saudade

Acabo de impedir o envio de um novo e-mail. Mais uma saudade mantida em silêncio, velada pela madrugada. O servidor de e-mails dizia: sending, quando cliquei, movida por impulso urgentíssimo, no discard this message. Discard this message. Descarte essa saudade. Descarte mais essa declaração rasgada de saudade, mulher. O perigo da alta hora, da solidão musicada. A armadilha do pensamento brincando de passar a limpo o que, a essa altura, já é completamente impermeável à ação de qualquer pano úmido. O passado. A distância, a mancha que se vai criando pra abrir caminho pra parceria mais perene de todas - invenção e memória.

Tenho sentido sua falta, é verdade, mas de quem é mesmo esse pronome possessivo.
Dos passeios pelo Leblon, da trilha sonora da Adriana C., das promessas sabidamente impossíveis.
Dos toques de mão, dos batuques no volante do carro, do olhar profundamente tímido, infantil.
Nada disso e tudo isso.
Às vezes a gente chama de saudade o que é só uma lembrança.
De falta o que é, ao contrário, presença que acompanha e preenche, pela força de ter sido.

Tenho sentido presença, então.
E talvez meu impulso tenha mesmo acertado: presença a gente não comunica.
Não há pedido algum a fazer. Não há nada a ser dito, nada a ser resolvido.
Sua presença haverá de me acompanhar.
Sua expressão sofrida. Seus segredos calados, suas dores mais íntimas.
O que foi, o que há.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Mania de explicação I

A Elisa me lembra que somos todos iguais: deus deu de me fazer parecida, aparecida, santa, puta, criança, deu de me fazer diferente, pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente.
O Arnaldo repete a lembrança: semelhante de você, diferente de você, passageiro de você.
Tá, tudo bem.
Sempre achei que a nossa viagem era irremediavelmente uma viagem só: estamos todos no mesmo barco, e por questão de fio, por questão de uma única onda, é um dos remos entortar, pra todos naufragarmos.
E essa sensação de pertencimento a uma multidão muito mais me agrada que assusta.
Só que tem dia que acontece diferente: tem dia que eu não queria ter nada a ver com nada disso aqui.
Hoje mesmo. Eu e Marly conversamos como duas senhoras de uma cidade de interior: nossa sintonia é fina, e o nosso estoque de assunto, inesgotável. Contei uma história cabeluda pra ela: como diabos eu me dei conta de que tinha finalmente ingressado na vida adulta, como as pessoas têm me assustado e entristecido, como a minha ingenuidade e o meu impulso em direção às gentes me expõem - pro melhor e pro pior -, como a gente acha que conhece mas não conhece etc. e tal.
Marly me responde com outra história cabeludíssima. Haja piolho pra mais essa cabeleira: é maldade, é dor, é sofrimento, é covardia, é nojeira da braba mesmo.
E agora, José? Eu sou isso também?
Essa violência descabida, essa insensibilidade ilimitada, esse horror - tudo isso me pertence, então?
Ah, não.
Prefiro pensar o que de fato é, o que de fato são: sintomas de uma sociedade à beira do abismo.
E aí, nesse barco furado, somos todos iguais, sim. Pra além dos horrores, estamos todos perdidos, solitários, inseguros, carentes, desa(l)mados, prefixados com todas as negativas possíveis: des-isso, in-aquilo, anti-nós.
Lidar com o fato de que o ser humano pode se tornar um monstro não me é tarefa simples.
Logo eu, com essa mania de explicação - como é que eu fico, meu irmão? Como é que eu me explico? Eu que sempre detestei filme de terror.
Faço volta e me agarro novamente aos poetas, aqueles desgarrados.
Faço silêncio e vigília.
Ouço cada um em acorde, verso, sentimento.
Saio fora dessa, pra voltar pra dentro.
E é nesse amálgama de infinitas cores e sons que eu me re-esperanço.
É na força de cada pulsação que tudo recomeça. Que se dá uma refundação.
Que tudo soa e ecoa como chamado a uma nova era, um novo tempo:
Vamos lá, meu semelhante.
Vida afora, gentileza gerando gentileza,
A gente se enriquecendo por dentro,
Se multiplicando, ficando grande.

sábado, 23 de maio de 2009

Espelho, espelho e eu

Tem dia que o espelho responde assim: ok, segue em frente.

É quando o espírito transmite a calma de se saber o possível, o máximo possível.

Tem dia que o espelho te encara logo cedo e diz: qual é, pô, dá pra fazer muito melhor.

É quando o espírito comunica que há vida dentro querendo sair.

O espelho e eu: a gente anda em negociação.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Força estranha

Há quase uma semana, o Caetano Veloso se estabacou em pleno palco, aqui em Brasília. Cantava "Força estranha" e alguma força estranha quase que quebra o nariz do cara. Que merda, hein.

Quase uma semana depois, outra força estranha me traz de volta aqui. Eu, hein.

Meu pai me disse esses dias que tem mania de explicação. Eu olhei pro velho meio curiosa. Pensei: logo você? tá de sacanagem. Nada! Ele me jurou que tinha, sim, a tal mania. E tinha razão também, porque ele explica o mundo inteiro, sob uma ótica um tanto... campestre, eu diria, mas explica. Explica e não cobra direito autoral, porque ainda não descobriu as maravilhas da propriedade intelectual.

Quanto a mim, fiquei meio decepcionada. Eu achava que DNA só transmitia miopia, prisão de ventre, (des)inteligência, (in)fertilidade, alergia, problemas dermatológicos.

O velho não me criou, pô.

Como é que se criou em mim, então, essa tal mania de explicação?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

NO WAY

tento fazer desse lugar o meu lugar
ao menos por enquanto
enquanto isso durar
o que me separa de você agora
um avião
um oceano
outros planos
e muitos enganos

por enquanto espero
vou vivendo
apenas fantasio meus dias aqui
isso é verdadeiro
me troco
me arrojo
ao menos por enquanto
enquanto isso durar

como voltar
no way
não sei nem divagar sobre nós
como voltar
esperar um prêmio intenso
de voltar pra mim
diferente
vou tentar fazer daqui o meu lugar