terça-feira, 2 de junho de 2009

Carta pra uma saudade

Acabo de impedir o envio de um novo e-mail. Mais uma saudade mantida em silêncio, velada pela madrugada. O servidor de e-mails dizia: sending, quando cliquei, movida por impulso urgentíssimo, no discard this message. Discard this message. Descarte essa saudade. Descarte mais essa declaração rasgada de saudade, mulher. O perigo da alta hora, da solidão musicada. A armadilha do pensamento brincando de passar a limpo o que, a essa altura, já é completamente impermeável à ação de qualquer pano úmido. O passado. A distância, a mancha que se vai criando pra abrir caminho pra parceria mais perene de todas - invenção e memória.

Tenho sentido sua falta, é verdade, mas de quem é mesmo esse pronome possessivo.
Dos passeios pelo Leblon, da trilha sonora da Adriana C., das promessas sabidamente impossíveis.
Dos toques de mão, dos batuques no volante do carro, do olhar profundamente tímido, infantil.
Nada disso e tudo isso.
Às vezes a gente chama de saudade o que é só uma lembrança.
De falta o que é, ao contrário, presença que acompanha e preenche, pela força de ter sido.

Tenho sentido presença, então.
E talvez meu impulso tenha mesmo acertado: presença a gente não comunica.
Não há pedido algum a fazer. Não há nada a ser dito, nada a ser resolvido.
Sua presença haverá de me acompanhar.
Sua expressão sofrida. Seus segredos calados, suas dores mais íntimas.
O que foi, o que há.